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Fomos falar com quem sabe

Saúde
mental

Conversa com João Bessa, médico psiquiatra e pai de dois alunos do Colégio João Paulo II, em Braga.

João Bessa
Quem é

João Bessa

João Bessa é médico psiquiatra, doutorado em Neurociências, investigador principal e professor universitário. É diretor do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Minho e Presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. É também pai de dois alunos do Colégio João Paulo II, em Braga.

Universidade do Minho, Escola de Medicina; ICVS; 2CA Braga; ULS Braga; Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental
Pergunta 1

Quando falamos de saúde mental, do que estamos realmente a falar?

Falamos de uma dimensão essencial da nossa saúde: a forma como sentimos, pensamos, nos relacionamos e enfrentamos as dificuldades. Ter saúde mental não significa estar sempre feliz ou nunca sentir ansiedade. Significa poder viver as diferentes emoções, encontrar apoio e manter espaço para aprender, gostar de coisas e construir relações.

Pergunta 2

Como distinguir uma fase difícil, própria do crescimento, de um problema que merece atenção profissional?

Mais do que um comportamento isolado, importa perceber a intensidade do sofrimento, quanto tempo dura e como afeta o quotidiano. Quando as dificuldades persistem, se agravam ou interferem com o sono, a escola, as amizades ou a vida familiar, devemos procurar ajuda. Não é preciso esperar por uma crise nem ter a certeza de que existe uma doença.

Pergunta 3

Que sinais devem alertar os pais para uma possível dificuldade emocional num filho?

Sobretudo, mudanças marcadas em relação àquilo que é habitual naquela criança ou adolescente: isolamento, irritabilidade persistente, perda de interesse, alterações do sono ou do apetite e dificuldade em ir à escola. O sofrimento nem sempre aparece como tristeza. Referências a querer desaparecer, morrer ou magoar-se devem ser sempre levadas a sério e motivar ajuda imediata.

Pergunta 4

Que fatores pesam mais hoje na saúde mental de crianças e adolescentes? Ecrãs, redes sociais, sono, pressão escolar?

Não há uma causa única: contam as características individuais, as relações, as condições de vida e as experiências de cada um. O sono insuficiente, o bullying e a pressão constante podem pesar muito. Nos ecrãs, importa olhar para os conteúdos, as interações e aquilo que o uso está a substituir: dormir, brincar, estar com os outros ou fazer exercício.

Pergunta 5

Como pode uma família falar de emoções em casa sem pressionar nem desvalorizar?

Começando por ouvir, sem tentar corrigir imediatamente o que o outro sente. «Percebo que isto te esteja a custar» abre mais espaço do que «não tens razão para estar assim». Os adultos também podem falar das suas emoções de forma adequada à idade dos filhos. Acolher uma emoção não significa aceitar todos os comportamentos: compreensão e limites podem coexistir.

Pedir ajuda é uma forma de cuidar de nós.
Pergunta 6

O que fazer quando um filho adolescente não quer falar?

Respeitar o seu tempo, mantendo uma presença disponível: «Não tens de falar agora, mas estou aqui para te ouvir.» Por vezes, uma conversa surge mais facilmente durante um passeio ou uma atividade partilhada. Podemos também facilitar o contacto com outro adulto de confiança. Se houver sinais de sofrimento importante ou risco, devemos procurar ajuda mesmo que ele não queira conversar.

Pergunta 7

Que papel podem ter a escola e os professores na proteção da saúde mental dos alunos?

A escola deve ser um lugar de segurança, pertença e confiança. Relações respeitadoras, prevenção do bullying e espaço para errar e pedir ajuda fazem parte dessa proteção. Os professores podem reconhecer mudanças e articular com a família e os profissionais de saúde. Não precisam de fazer diagnósticos para terem um papel decisivo no bem-estar dos alunos.

Pergunta 8

Que conselhos deixa aos alunos para lidar com a ansiedade antes de testes e momentos de avaliação?

Algum nervosismo antes de uma avaliação é natural. Preparar o estudo por etapas, fazer pausas e proteger o sono ajudam a lidar com a ansiedade. No momento, pode ser útil respirar devagar e concentrar-se numa pergunta de cada vez. Uma nota avalia um desempenho num determinado momento; não define o valor de ninguém. Se a ansiedade bloqueia repetidamente, vale a pena pedir apoio.

Pergunta 9

Quando e a quem devemos pedir ajuda? Qual a diferença entre médico de família, psicólogo e psiquiatra?

Devemos pedir ajuda quando o sofrimento persiste, interfere com a vida ou nos preocupa. O médico de família pode fazer uma primeira avaliação global e orientar os passos seguintes. O psicólogo faz avaliação e intervenção psicológica. O psiquiatra (ou o pedopsiquiatra, nas crianças e adolescentes) é um médico especializado em saúde mental, que pode definir o diagnóstico e prescrever tratamento quando indicado. São todos contributos complementares que devem ser integrados.

Pergunta 10

Porque é que ainda custa tanto pedir ajuda? Que mensagem deixa a quem hesita em fazê-lo?

Por medo de sermos julgados, por vergonha ou pela ideia de que devíamos conseguir resolver tudo sozinhos. Por vezes, também é difícil encontrar palavras para explicar o que sentimos. Pedir ajuda é uma forma de cuidar de nós. Não é preciso saber exatamente o que se passa: «Não me tenho sentido bem e precisava de falar» pode ser o primeiro passo.

Para terminar

Mensagem final a pais e alunos

Aos pais, diria que não precisam de ter sempre a resposta certa: escutar, estar presentes e reconhecer quando precisam de apoio já é muito importante. Aos alunos, que as suas dificuldades merecem ser ouvidas. Cuidar da saúde mental faz-se no quotidiano, nas relações que construímos e na possibilidade de pedir ajuda sem vergonha.

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